Fórum Saúde

#1 Qua 25 Fev 2009 08:20:11

Sente dificuldade em dizer não?

Byblo
Administrator

Offline

Se diz "sim" com demasiada facilidade, talvez tenha receio de defender os seus pontos de vista. Vença esses medos e aprenda a transformar uma discussão agreste num debate saudável e positivo.

Já pensou que, no fundo, uma discussão é sentar-se frente a outras pessoas e trocar opiniões sobre um tema? Para muitos de nós, contudo, as coisas não são assim tão simples: a mera possibilidade de contrariar os demais é algo de assustador. Saber "dizer não", quando se quer "dizer não", é uma habilidade social difícil de adquirir. Quem não o conseguir acaba por fazer o contrário do que deseja e, com isto, perder a auto-estima e o respeito dos demais.
Segundo os especialistas, o problema parece resultar de baixos níveis de auto-afirmação que geram o receio do conflito e da discussão. Defender uma ideia ou pedir algo torna-se um verdadeiro suplício e, até a crítica mais inocente é vista como uma afronta.

Quem padece desta carência pode acumular tanto mal-estar que acaba por exagerar e conduzir todas as discussões para situações de agressividade e violência.
Mas qual é a origem deste tipo de comportamento? Ao que se julga, está relacionado com um atributo que se adquire na infância e que, em psicologia, se designa por "assertividade". Uma pessoa assertiva pode ser definida como alguém que sabe respeitar os seus direitos sem esquecer os dos outros. Nos extremos, temos a conduta submissa, que esquece os direitos próprios, e a agressiva, que deprecia os alheios. Como sempre, as posições intermédias são as mais saudáveis e saber mantê-las é, sobretudo, uma questão de prática!

Os desequilíbrios de assertividade são uma causa frequente de ida ao psicólogo, depois da depressão e dos problemas relativos ao casal e ao sexo. Das pessoas que solicitam ajuda, 90 por cento são pouco ou nada assertivas e 10 por cento não o são de todo, ou seja, são autoritárias e invadem o terreno dos outros ao menor pretexto.
A assertividade ou auto-afirmação é um processo de aprendizagem que começa na infância, na chamada etapa de socialização, que ocorre por volta dos dois anos. Actualmente, considera-se esta fase determinante para a formação da personalidade. Trata-se de educar a criança de forma a que esta conheça os seus limites e se sinta segura de si própria, permitindo-lhe expressar as suas opiniões sem repressão ou protecção excessivas. Em outros tempos, era mais frequente educar-se com base no chinelo. Quem, em criança, não se cansou de escutar o "ver, ouvir, calar e obedecer"? Por isso existem tantas pessoas que, temendo uma repreensão, apenas estão seguras de uma coisa: não têm direito de discordar nem de dizer o que pensam. Vê-se, com frequência, nesta situação? Se assim é, chegou a hora de mudar o seu rumo. Isto porque, da submissão à manipulação e à dependência ou isolamento, vai apenas um pequeno passo.

Objectivo 1
Seja confiante
Quando uma amiga lhe propõe sair, é incapaz de dizer que não, ainda que esteja a morrer de cansaço? Vai ao cabeleireiro e sai com um corte que não desejava nem ao seu pior inimigo? No seu trabalho, assume tarefas que os demais evitam? Para encarar o problema, comece por analisar o que pensa, sente, ou faz numa situação de conflito.
Pergunte-se: estou a ter em conta os meus direitos? E os dos outros? A minha forma de actuação provoca-me mal-estar, tristeza, ira, culpa? Que faço: calo-me, perco o controlo, sobe-me a tensão?
As chaves para ter segurança em si própria estão presentes nos três componentes da actuação: cognitivo, emocional e motor. Antes de passar à acção é conveniente: 1 - Conhecer e consciencializar-se dos seus direitos; 2: Confiar neles; 3 - Saber exercê-los.
Marta sempre se relacionou bem com Maria, sua colega de trabalho. Ainda que não partilhe da sua visão ultraconservadora da vida, Marta nunca teve dificuldades em levar o relacionamento em frente. Quando Maria emite um julgamento radical que ela não partilha, Marta não discorda, muda de tema e arruma o assunto.
Certo dia, reuniram-se ambos com os seus filhos. A filha de Maria chegou a chorar porque haviam passado próximo de uma reunião de emigrantes e a mãe falara com desprezo em "estrangeiros delinquentes". Maria conta o sucedido e ridiculariza o choro da filha. Marta cala-se, cada vez mais irritada. Depois de um quarto de hora a ouvi-la criticar os valores solidários e anti-racistas nos quais educa os seus filhos, perde o controlo e diz, precipitadamente, tudo o que havia calado durante anos de amizade. A colega ofende-se, não entende e sai. Marta sente-se morrer....
Ficou claro qual foi o erro? Marta confundiu a empatia e a tolerância com o ceder terreno às suas ideias e acabou por perder uma amizade que esteve sempre baseada num equívoco.

Objectivo 2
Aceite as diferenças
Numa relação, o normal é que existam diferentes opiniões e formas de ver a vida, momentos de encontro e de desencontro. Quando surgem as diferenças, o mais recomendável é expor com serenidade as razões que nos separam da atitude do outro. Guardar opiniões apenas contribui para acumular rancor que, adiado, explodirá como amargura, ira ou vingança subtil no momento mais inesperado: nada menos inteligente e mais destrutivo para uma relação. É importante compreender que exprimir uma opinião ou mostrar desacordo não é um ataque ao outro, mas um exercício de respeito por si próprio. O contrário também deve acontecer: não devemos tomar por afronta a discordância dos outros. Por outro lado, evitar resolver um assunto que preocupa ou cria obstáculos a uma relação acaba por deixar marcas emocionais e físicas. O que fazer quando alguém em quem confiávamos nos apunhalou pelas costas? Existem três opções: uma confrontação directa para explicar e discutir a causa da traição; fazer de conta que não foi nada, correndo o risco de, mais tarde ou mais cedo, pôr em causa a relação e a auto-estima do que se calou; ou, simplesmente, distanciar-se do presumível traidor, por achar que não vale a pena conviver com quem nos prejudicou.

Objectivo 3
Argumente sem atacar
Existem regras para a discussão entre pessoas civilizadas. Falar com educação, clareza e bom tom, não ferir sensibilidades, não "ser do contra" por sistema e não desferir golpes baixos. Saber escutar com paciência, disponibilidade para entender e sem suspeitas ou desconfianças. As pessoas pouco assertivas não costumam ter um meio termo: passam do "oito para o oitenta" sem aviso. Ora porque suportam tudo o que lhes fazem até que explodem, ora porque aceitam mal as críticas, inclusivamente as construtivas, acabando por se confrontar das formas mais infantis.
Antes de mais, há que deixar de lado a violência tão frequente nas discussões. No momento de tirar algo a limpo de um debate ou de uma troca de pontos de vista, são maus princípios culpar o outro e emitir juízos de valor do tipo: "tu és sempre a mesma", ou "não suporto o teu histerismo", já que isto apenas leva a uma espiral de acusações mútuas.
Às vezes, é melhor não discutir a quente, porque actuamos de modo irreflectido e dizemos coisas das quais mais tarde nos arrependemos. Todavia, também não é recomendável deixar passar demasiado tempo, sobretudo se se trata de um tema importante. Na prudência e na oportunidade está o segredo para argumentar com inteligência. As discussões civilizadas e bem conduzidas são um ingrediente fundamental de uma comunicação salutar.
Outra armadilha é atribuir ao interlocutor intenções maliciosas antes de lhe dar oportunidade de contar a sua versão. Tentar entender a postura do outro e ser receptivo ao seu ponto de vista é um bom exercício para aprender a reflectir com profundidade. Também costumamos dar por adquirido que os outros sabem como nos sentimos. No entanto, há que assumir a responsabilidade de verbalizar os sentimentos próprios e começar por explicar esse mal-estar, para que o outro entenda melhor o que se passa.
O êxito da confrontação depende, em grande medida, de nós próprios e da atitude que tomamos perante a mesma. Não há garantias de que a discussão resolva o problema, mas evitá-la pode tornar-se uma bomba de efeito retardado. Se tudo for conduzido de forma inteligente, pode servir para restaurar a autoconfiança perdida e para melhorar e reparar as nossas relações com os demais.

7 mandamentos de uma boa discussão
1 - Procure o momento adequado. Imagine o cenário e escolha a melhor oportunidade. Não adie indefinidamente.
2 - Proceda por etapas e com clareza. Se existem várias frentes de discussão abertas, enfrente-as separadamente, de forma directa e organizada: não perca de vista o objectivo.
3 - Fuja de posturas rígidas. Encare a confrontação sem preconceitos. E mentalize-se para tentar entender os argumentos do outro. Ambos terão de ceder algo para alcançar uma "solução de compromisso".
4 - Situe as críticas no contexto da relação. Dê-lhes o valor necessário sem se mostrar ofendida à primeira.
5 - Não desqualifique o seu interlocutor. Com subtileza, sensibilidade e tom de voz adequado tudo, se pode dizer.
6 - Faça um exame de consciência. Pergunte a si própria: será que tenho responsabilidades no conflito?
7 - Encontre soluções. Se tal não for possível, ofereça alternativas. Seja positiva e justa.

 
Fórum Saúde

Rodapé do fórum

Powered by FluxBB